sexta-feira, 21 de novembro de 2008   Busca:
 
 
 
 
Tania Zagury
 
Tânia, as escolas e os pais estão em conflito? Por que este tema no seu novo livro?
De fato. Durante mais de dois séculos, família e escola viveram em permanente lua-de-mel, quer dizer, o que a escola pensava e determinava era o que os pais pensavam. Tudo que a escola propunha, quer em termos de tarefas, estudos - e até mesmo as sanções - era acolhido e endossado pelos pais. Hoje, pude observar através das mais de 650 palestras para pais em escolas brasileiras e pelos inúmeros depoimentos que colhi junto a pais e professores, que esse clima de confiança total já não existe mais.

Por que isso está ocorrendo?
Em parte, pelo fato de os pais, hoje, terem mais informações sobre Educação, formal ou informal. A mídia em geral se encarrega de divulgar conhecimentos a respeito de novas metodologias, de novos conceitos sobre avaliação etc. Isso é positivo, porque torna os pais mais conscientes do que seja o processo pedagógico. E esse é o lado bom. Mas existem outros aspectos que estão concorrendo para essa quebra de confiança. Para citar apenas um - e esse é negativo -, cito o fato de os pais estarem hoje muito preocupados com aspectos psicológicos, poderia dizer até mesmo que, de certa forma, estão "contaminados" por um psicologismo exagerado e tendem a pensar que qualquer problema que os filhos tenham - seja na escola ou fora dela - pode acarretar algum dano emocional. A partir daí, sua atitude pode tornar-se defensiva, ou seja, se um professor tem alguma atitude de que o aluno não gosta, ele conta em casa e, imediatamente, os pais vão à escola reclamar, haja ou não motivo real para isso. Esse fato, muito comum hoje, retrata a perda de confiança irrestrita que reinava anteriormente e que diminui a cada dia.

Mas não é bom que os pais acompanhem e critiquem a escola? Isso não é democrático?
Sem dúvida que sim. Desde que suas observações e queixas tenham fundamento, é desejável que participem, mas isso não pode e não deve ser feito de forma a diminuir a autoridade dos professores ou da escola como instituição, especialmente frente aos alunos. No meu livro, o que busco é justamente dar fundamento (em termos gerais é claro, porque não se trata de formar ninguém em Pedagogia), trazer informações que permitam aos pais não só fazer um julgamento e um acompanhamento adequado do que ocorre na escola, como também mostrar que muitas vezes, agindo de forma superprotetora, ao invés de defender os filhos, pode-se criar condições que dificultam ou até impedem o aprendizado, pois vendo que os pais não confiam nos professores, os filhos passam, também, a não confiar - e em alguns casos a desafiar - e em outros, a utilizar esse dado como um ótimo instrumento para não estudar. Em resumo, há formas e formas de participar. Algumas ajudam, outras prejudicam o bom andamento do trabalho educacional.

Qual a forma adequada de participar?
Primeiramente, não acreditando piamente em tudo o que os filhos contam, não porque eles mintam, mas porque muitas vezes, carregados de emoção, contaminados por sentimentos que ainda não dominam, pela falta de maturidade, eles passam aos pais a idéia de que sofreram uma atroz injustiça e os pais então, movidos pelo amor intenso que têm pelos filhos, mas também pela insegurança, a culpa e o medo dos 'traumas", vão de imediato à escola, reclamam, ameaçam, as vezes se precipitam e tiram o filho do colégio, enfim, atuam de forma que, em vez de ajudar à escola e especialmente ao filho, cria problemas. No livro, procuro dar as diretrizes para um bom julgamento, crítico, maduro e isento sobre o processo pedagógico. A participação é desejável, mas é preciso que os pais compreendam que os professores são especialistas em educação e, o mais das vezes, agem com justiça e adequação. Erros existem e se os pais percebem, devem apontá-los, mas dentro de determinadas normas que levem ao aperfeiçoamento do ensino.

A participação dos pais ajuda o processo pedagógico?
Claro, desde que não seja feito de modo a trazer insegurança para os filhos e para a escola. Quer dizer, não se trata de uma "guerra" entre pais e professores, e sim uma união em prol de propósitos comuns - a Educação das novas gerações. No livro ESCOLA SEM CONFLITO, escrevi dois capítulos para aclarar essa questão - um que tem como título "Como atrapalhar o trabalho da escola" e o outro "Como ajudar a escola". Acredito que os pais desejem ajudar, mas às vezes, muito envolvidos emocionalmente, acabam criando problemas mais sérios do que o que de fato ocorreu. Creio que esse livro vai ajudar muito, porque nele, trago também informações gerais que os pais não têm como por exemplo, saber diferenciar o que é uma escola moderna e uma tradicional, como e o que é hoje uma escola de qualidade, entre outros. Dessa forma, eles ficarão mais tranqüilos e aptos a interpretar o que está ocorrendo na prática.

A quem se destina ESCOLA SEM CONFLITO?
A todos os pais que têm filhos na escola ou que estão escolhendo a escola dos filhos. Não é apenas para quem ainda vai colocar o filho na escola, mas também para quem já está com filhos estudando, porque traz subsídios que permitem aos pais trabalharem para tornar o filho um bom aluno. Tanto no que se refere a escolas públicas como particulares.

Os pais têm influência no fato de o filho ser um bom ou mau estudante?
As tarefas dos pais são tantas... E essa seguramente é mais uma delas. E ainda há tanta gente que critica os pais... Na verdade, acho que eles são os verdadeiros anjos da guarda dos filhos. A atitude dos pais não garante que o filho vai ser o primeiro aluno da turma, mas tem influência fundamental na formação do bom estudante, que é, sem dúvida, o desejo de todos nós, pais e professores. Todo mundo quer que o filho estude, não dê problemas na escola e, de preferência, que estude com prazer. Os pais podem ajudar muito nesse sentido. No livro ESCOLA SEM CONFLITO uma das minhas preocupações foi trazer para os pais subsídios que os fortaleçam na ação diária com os filhos em relação aos estudos.

Você atualmente é considerada uma das autoras mais bem sucedidas na área da Educação. A que atribui esse sucesso?
Creio que o sucesso dos meus livros deve-se a três fatores, principalmente: os temas, sobre os quais escrevo, focalizam sempre algum problema detectado pelas minhas pesquisas de campo, quer dizer, são problemas reais e concretos, que de fato estão preocupando as pessoas que atuam em Educação. Em segundo lugar, porque como profissional da Educação há mais de 30 anos, trago informações técnicas, não "achismos", e sempre de forma clara e objetiva. E também porque procuro fazer com que meu texto seja compreensível para pessoas de qualquer nível cultural.

Como se sentiu tendo seu livro Limites sem trauma vendido, em pouco mais de um ano, mais de 120.000 exemplares e figurado durante mais de 50 semanas nas listas dos mais vendidos, especialmente pelo fato de ele ser um livro de educação?
Evidentemente, me senti muito feliz e realizada. Especialmente porque isso prova que interesse em temas sérios e fundamentados existe, sim, no Brasil, diferentemente do que muitos afirmam. O importante é acreditar no potencial das pessoas, no interesse e na motivação pelo saber, que sempre defendi e no que acredito. O homem tem uma tendência natural para fazer o bem e procurar sentir-se útil.

João Almino
09/06/2008

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J. Toledo
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